sexta-feira, 13 de junho de 2008

Não Enche, Caetano Veloso



" O próprio Caetano disse que a música fora feita para a imprensa,
sobre a relação que Caetano tem com ela."
 carolina 

" Acredito que toda musica tem o seu sentido fundamental
no intimo de quem a aprecia. Qualquer inspiração que
o autor possa utilizar não tem significado fechado
nem para ele próprio. Portanto, a musica vem como
um instrumento/fonte pelo qual podemos dar sentido
às nossas vivencias. Assim cada um interpreta da forma
que pode ou quer."

ton

caetano veloso

Eu, como intérprete, canto esta composição do
Caetano tal como ela por ele é interpretada. Nunca procurei
aprofundar-me em seu hipotético sentido oculto em sua letra e apenas
levo-a aos ouvidos de meu público que a entende de acordo com
seus sentimentos próprios, válidos ou não.
Gostei muito das duas análises acima onde seus autores Carolina e Ton,
expressam a  opinião que faço minhas. Aproveito também para
publicar a análise de Leonardo Da Vino, que interessante achei.



" Certa vez, Caetano (um velho baiano) disse:
'As minhas letras são todas autobiográficas. Até as que
não são, são.' Deixando de lado o jogo estético,
esta afirmação ajuda-nos a entender o sujeito de 'Não enche',
quando este argumenta 'o que eu herdei de minha gente
e nunca posso perder', para logo adiante começar
uma estrofe com a deliciosa expressão nordestina 'Oxente'.

Aliás, a própria melodia samba-rock-axé intensifica isso.
O sujeito faz de seu canto um desconjuro: vai elencando,
em capcioso caos, muito pela ira que lhe move, fragmentos
de momentos e sentimentos. Ele desconstrói a relação dual:
'eu vou viver sem você', arremata. E faz tudo isso com
ludicidade e ênfase sensorial, envolvendo e tornando
o ouvinte cúmplice. O sujeito usa as torções semânticas
e a mistura melódica para a estesia do ouvinte.
Ao final, estamos (nós: ouvintes) prontos para também odiar
e deslindar-se desta senhora: dona do dom do sujeito cantor.

Vamos percebendo a mulher cantada por partes.
Tonta pela profusão de eus desenhados no canto do sujeito,
afinal ela 'nunca quis ver, não vai querer, não quer ver',
a musa-trepadeira parece desabar do salto: unhas negras
quebradas e os castanhos lábios borrados de carmin.
Mas tudo não passa de sugestão, ameaça. Ou não? Seja como
for, o sujeito assume o risco de enfrentar a musa - voz
clarificada, 'gritando: nada mais de nós!'. Um gesto
vertiginoso e de alto risco, pois, como Clarice Lispector
escreveu: 'Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro'.

carlos miranda (betomelodia)






Me larga não enche
Você não entende nada
E eu não vou te fazer entender

Me encara de frente
É que você nunca quis ver
Não vai querer, nem vai ver
Meu lado meu jeito
O que eu herdei de minha gente
Eu nunca posso perder
Me larga, não enche
Me deixa viver me deixa viver
Me deixa viver me deixa viver

Cuidado oxente
Está no meu querer
Poder fazer você desabar
Do salto nem tente
Manter as coisas como estão
Porque não dá não vai dá

Quadrada Demente
A melodia do meu samba
Põe você no lugar
Me larga não enche


Me deixa cantar me deixa cantar
Me deixa cantar me deixa cantar

Eu vou clarificar
A minha voz gritando
Nada mais de nós
Mando meu bando anunciar
Vou me livrar de você

Harpia Aranha
Sabedoria de rapina
E de enredar de enredar
Perua Piranha
Minha energia é que
Mantém você suspensa no ar
Prá rua se manda
Sai do meu sangue
Sanguessuga
Que só sabe sugar
Pirata Malandra
Me deixa gozar me deixa gozar
Me deixa gozar me deixa gozar

Vagaba Vampira
O velho esquema desmorona
Desta vez prá valer
Tarada Mesquinha
Pensa que é a dona
E eu lhe pergunto
Quem lhe deu tanto axé

À-toa Vadia
Começa uma outra história
Aqui na luz deste dia "D"
Na boa na minha
Eu vou viver dez
Eu vou viver cem
Eu vou vou viver mil
Eu vou viver sem você

Eu vou viver sem você
Na luz desse dia "D"
Eu vou viver sem você


caetano veloso



fontes
imagens: google - vídeo: youtube - texto: carlos miranda (betomelodia)
base das pesquisas: google